Um momento difícil para a Religião: igrejas estão virando empresas.

escrito por Paulo Octávio Tassinari Caixeta

            Depois de nascido fui batizado em uma igreja Católica. Respeito todas as outras religiões, com raras exceções. Estou dizendo isso porque este texto não é tendencioso e minha intenção aqui é só expor um ponto de vista que tenho observado há alguns anos.
  Apesar de Católico, sinto vergonha de minha religião pelo seu passado. A igreja Católica já matou milhares de pessoas através de conflitos no passado pela sua arbitrariedade insana e por ganância. Muitas dessas pessoas morreram sendo inocentes. Hoje, no presente, acredito que ela tenha se corrigido. Contudo não deixa de ser assassina. Mas meu compromisso nessa vida é com Deus e não com a instituição religiosa propriamente dita e estabelecida aqui na terra. Para mim a igreja seria uma escola que tenta nos mostrar a existência divina, ou numa visão política: um forte instrumento de controle comportamental na sociedade.
Mais uma vez, me desfazendo de partidarismo por causa de minha religião, gostaria apenas de manifestar meu ponto de vista devido aos fatos que venho observando e você, leitor, tem todo o direito de discordar do que estou falando aqui.
Tenho reparado igualmente como muitos outros brasileiros que diversas congregações denominadas evangélicas, principalmente as de maior abrangência, fundadas na década de 90 (estou dizendo isso para não citar nomes), têm demonstrado uma política de arrecadação de tributos de seus fiéis, que considero exagerada.
Acompanhei pela TV por diversas vezes e até presencialmente por algumas vezes os cultos de três instituições religiosas. Nas três, notei um comportamento em comum: o bispo, apóstolo ou quem quer que fosse, após a leitura das passagens bíblicas e do sermão, fazia a associação dessas leituras ao dízimo com o objetivo de induzir os fiéis a valorizá-lo, e a não boicotá-lo. Às vezes enfatizava tanto, que além de ficar dando bandeira sobre suas intenções, deixava muitos com a pulga atrás da orelha, tipo eu quando comecei a acompanhar esses cultos.
Nos cultos dessas instituições, os oradores sempre tocavam no assunto do dízimo. E de modo a garantir as doações, apontavam más consequências futuras para quem não as fizesse. Pelo jeito que ocorre podemos dizer que isso é uma chantagem. E persuadir o fiel não é difícil. Basta pensar: como fugir da responsabilidade de ser dizimista se o pastor coloca na sua cabeça constantemente que se você não contribuir, você estará em descompromisso com Deus ou que se você não der o dízimo seus problemas não vão desaparecer e etc.? Nessas condições nenhum fiel terá coragem de fazer o contrário! Melhor é contribuir! Então, basta esse dentre vários motivos mencionados pelos líderes religiosos para que o fiel tenha medo e não fuja da raia, sendo assim uma boa ovelhinha. Todo esse pensamento é possibilitado pela Teologia da Prosperidade, pois ela diz que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos e que a , o discurso positivo e as doações para os ministérios cristãos irão sempre aumentar a riqueza material e financeira do fiel. Portanto, negar o dízimo, pela lógica da teoria irá trazer prejuízos e déficits ao fiel e Deus pode não abençoá-lo. De forma análoga, se o indivíduo não tiver fé nas palavras do pastor ocasiona-se o mesmo efeito negativo.
Não acho que seja errado doar à igreja. Pelo contrário, temos mais é que ajudar aqueles que querem compartilhar a palavra divina. Entretanto, certos limites têm de ser obedecidos. Um deles é o do próprio bolso dos fiéis. Não são todos que têm condição de doar pelo menos 10% de seu salário, ainda mais nesse país onde o estado chupa até o “talo” do contribuinte brasileiro e não dá o devido retorno na mesma proporção. Além disso, seria um grande gesto de humildade e ética por parte dessas igrejas caso elas não estipulassem os valores que desejam receber e deixassem essa decisão por conta do fiel de acordo com o que ele tiver condição de doar. Dessa forma seria muito mais justo. Ainda mais com a atual situação financeira dos líderes dessas instituições, que notavelmente têm multiplicado seu patrimônio a níveis muito altos. Para mim, estão tirando de quem já tem pouco para fazerem fortuna. É o Brasil, de um povo ignorante e manso.
Hoje o dirigente de uma congregação não é avaliado pelas vidas que foram  transformadas ou resgatadas do sub-mundo do crime ou das drogas e nem pela  quantidade de almas que conseguiu agregar ao seu rebanho, mas sim pelo capital  que foi levantado esfolando e ludibriando as ovelhas com o “Evangelho”, mesmo que isso possa revoltar alguns fiéis porque esses não tenham conseguido estabelecer as metas propostas pela instituição religiosa
Outro limite é o da moralidade. Acho que aí a situação atual já ultrapassa o que é tolerável aos olhos da crítica, em outras palavras, a razão pela qual estou debatendo esse assunto é justamente porque acho que estão havendo exageros pois é EVIDENTE o grande acúmulo de riquezas desses líderes religiosos. Um deles já é uma figurinha na internet e desde a fundação de sua igreja em 1998 até os dias atuais ele conseguiu construir um patrimônio imenso. Para se ter noção da grandeza de sua riqueza, ele possui duas fazendas na região do Pantanal, que juntas somam 50 milhões de reais e elas foram compradas com dinheiro da igreja, aliás, dos trouxas dos fiéis. E por aí vai..
Outra estupidez - desculpe o termo, mas acho que não fui exagerado – é o apelo às curas milagrosas promovidas por esses líderes religiosos. Com grande frequência aparecem pessoas com documentos em mãos testemunhando que foram curadas ou que sanaram suas dívidas através dos métodos mais sobrenaturais e estúpidos que se pode imaginar. Isso não é uma afronta aos milagres de Deus. Isso é uma afronta à ciência e ao bom senso. É a mesma coisa que chamar o povo de otário. Enquanto que diante das câmeras eles curam um, os outros milhares que viram o fato acontecer decidem tentar a mesma sorte, se aderem à igreja, dão o dízimo com muita esperança de um milagre e no fim das contas ficam só mamando no dedo, esperando esse falso milagre vir. A única coisa que virá será um prejuízo ao infeliz que acreditou nisso.
Em suma, acho que estão aproveitando da boa fé das pessoas. Essas igrejas têm crescido bastante e se disseminaram. Estão agregando mais e mais fiéis, estes, em sua maioria esmagadora, pessoas de menor grau de escolaridade e de renda média ou baixa. Esse é o resultado de um país em que educação não é prioridade. São mais e mais pessoas caindo nas mãos de homens que, mais uma vez, enriquecem às custas dos menos esclarecidos e confundem o conceito de empresas com instituições religiosas.

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